O QUE É A ECOLOGIA ( EM MANUTENÇÃO )
Ecologia é uma ciência que está na moda e, desde há alguns anos, fala-se mesmo dela nos jornais e nos meios governamentais. Para alguns, esta ciência do «ambiente», como por vezes é qualificada, deveria salvar a Humanidade dos inconvenientes da civilização. Para outro, Ecologia significa «ciência da poluição», e há mesmo quem pretenda que ela é a última das poluições, a do cérebro, pois alimenta a inquietação no espírito do homem. Em face destas concepções opostas e, é necessário dizê-lo, um pouco simplistas, vamos esforçar-nos por esclarecer o que é, realmente, a Ecologia, quais os seus fins, os seus métodos e o que dela se pode esperar. A palavra «ecologia» ( do grego oikos, habitat, e logos, ciência ) foi, pela primeira vez, utilizada pelo biólogo alemão E. Haeckel em 1866. Para ele era «a ciência que estuda as relações entre o ser vivo e o meio em que ele se encontra». Esta definição conservou todo o seu valor. A Ecologia ocupa-se, pois, de todos os seres vivos, animais e vegetais, e das suas relações com o meio e os seres que vivem em torno deles. Por aqui se vê quanto o seu campo de estudo é vasto. Com efeito, nos nossos dias, em que a especialização atingiu um nível extremo , em que para uma única parte da Zoologia, como a Ornitologia ( estudo das aves ), há no mundo centenas de revistas que publicam, anulmente, milhares de artigos, a Ecologia surge, pelo contrário, como uma ciência de síntese. É, por excelência, a ciência do mundo vivo, uma nova maneira de considerar os animais e os vegetais, e, neste aspecto, é recente, pois remonta somente a alguns decénios. Anteriormente, muitos zoólogos e botânicos faziam ecologia sem o saberem. Durante muito tempo separou-se a Zoologia, da Botânica e, em cada uma destas ciêcias, criaram-se subdivisôes, tais como, por exemplo, em Zoologia, a Etologia (ciência do comportamento ), a sistemática ( ciência da classificação ), a Anatomia, a Fisiologia, a Bioquímica, etc. que, pouco a pouco, a Fisiologia, a Etologia ( ciência do comportamento ), a Sistemática ( ciência da classificação 9, a Anotomia, a Fisiologia, a Bioquímica, etc., que, pouco a pouco, se isolaram umas das outras á medida que aumentavam os conhecimentos. Pode, por isso, dizer-se que, actualmente, os especialistas destas várias disciplinas são estranhos uns aos outros, pois o perfeito conhecimento de um destes ramos impede o estudo pormenorizado de qualquer dos outros. O ecólogo,pelo contrário, tenta ultrapassar essa compartimentação, esforçando-se por adquirir uma visão global. Por exemplo: em vez de estudar o esqueleto da toupeira, limitando-se a este trabalho, o ecólogo procura saber em que medida a estrutura óssea deste animal corresponde ao seu tipo de vida subterrânea. Procura idênticos esclrecimentos em relação aos órgãos dos sentidos, á pelagem, á forma do corpo, etc. Quer dizer: tenta explicar a morfologia externa e interna e a fisiologia relativamente aos hábitos e ao meio ( solo) em que decorre a existência da toupeira. Investiga, portanto, sobre a importância das sensações tácteis neste animal, sobre as suas exigências no que respeita á natureza do solo; interessa-lhe igualmente o conhecimento dos seus inimigos, naturais ou não, a influência que têm na abundância da toupeira, a importância das culturas sobre a rede de glerias subterrâneas; procura, ainda, esclarecer o papel dos parasitas ( externos ou internos ) na sua mortalidade. O estudo do regime alimentar é, para o ecólogo, um mei de compreender melhor o papel que a toupeira desempenha no solo. Para conhecer, com profundidade, um único animal, o ecólogo deve, pois, tranformar-se, sucessivamente, em teriólogo (1), ornitólogo, botânico, entomólogo, climatólogo, pedólogo, geólogo, etólogo, parasitologista, geógrafo (2), etc. Por outras palavras, um verdadeiro ecólogo deveria ser uma espécie de supercientista com conhecimentos profundos em numerosos ramos do saber que lhe permitissem considerar todas as influências que se exercem sobre o animal ou o vegetal que estuda. Desde logo se compreende até que ponto é, actualmente, impossível atingir este ideal. Por isso, a maioria dos ecólogos tem uma especialidade: eles são, primeiramente, teriólogos, oceanógrafos, botânico ou herpetólogos (3) e, se pretendem ser também ecólogos, é-lhes necessário, se não possuírem uma bagagem de conhecimentos extremamente vasta nas outras ciências naturais, pelo menos terem o espírito aberto. Bem entendido, se o ecólogo for um botânnico, encontrar-se-á confrontado com problemas da mesma ordem que aqueles que o teriólogo, por exemplo, encontrar. Verifica-se que, Tanto num caso como no outro, a Ecologia não é, apesar das apaências, uma ciência fácil, e isto é muito característico de todas as sínteses. Para compreender o que ela é realmente, é-nos necessários conhecer em pormenor as suas divisões e o seu interesse prático, pois que, essencialmente, é aquilo de que se fala nos nossos dias. Bem entendido que este pequeno livro não pretende ser mais do que uma iniciação. Os exemplos mencionados são retirados sobretudo de certos grupos animais e vegetais. Não poderia ser de outra forma, mas é preciso não esquecer que os oceanos cobrem 71 % da superfície da Terra e que a Ecologia marinha é, por isso, de importância fundamental.
AS GRANDES DIVISÕES DA ECOLOGIA
Sendo a Ecologia uma ciência de síntese, seria um mau processo, quando se faz o seu estudo, isolar os animais dos vegetais. Com efeito, uns e outros estão indissoluvelmente ligados, e não é concebível que possam viver separadamente; por isso, serão tratados conjuntamente. Em 1896, SCHROTER criou o termo « Auto-Ecologia » para designar a parte da Ecologia que estuda a influência dos factores externos sobre o animal ou o vegetal e, mais precisamente, sobre os representantes de uma espécie determinada. Em 1902, o mesmo autor distinguia a Sinecologia-estudo das comunidades naturais, de que fazem parte animais e vegetais. Quer dizer: se tomarmos como exemplo um insecto, em vez de estudarmos a inflência da temperatura, da luminosidade, da humidade, etc., sobre este animal considerado vivo que o rodeia e de que ele depende estreitamente. Por exemplo: o conjunto ds animais e vegetais da floresta onde se desenrola a sua existaência. Auto-Ecologia e Sinecologia são esquecer o carácter artificial desta divisão. No estudo da Ecologia segue-se, habitualmente, tal divisão, mas isto não tem um valor absoluto. Poder-se-ia, perfeitamente, considerar a ecologia da reprodução, a ecologia dos deslocamentos ou da alimentação, etc.
PRIMEIRA PARTE
AUTO - ECOLOGIA
A parte do globo terrestre em que vivem os animais e os vegetais recebeu o nome de biosfera. Esta compreende: a atmosfera até uma altitude de cerca de 15000 m, o solo (litosfera) até algumas dezenas de metros de profundidade, as águas doces e as camadas superficiais (menos de 1000 m) das águas marinhas (hidrosfera). É pois dentro destes limites que vivem as 1 500 000 espécies animais e 350 000 espécies vegetais actualmente conhecidas. A auto-ecologia procura conhecer as influências externas que actuam sobre estes seres vivos. Tais influências dividem-se em dois grupos: factores físicos (ou abióticos: luz, temperatura, precipitações atmosféricas, etc). e factores bióticos: luz, temperatura, precipitações atmosféricas, etc). e factores bióticos (todos os seres vivosw que se encontram no ambiente da espécie em estudo). Vegetais e animais estão todos bem adaptados a condições de existência bem definidas, ainda que as aparências possam, por vezes, fazer-nos crer o contrário ( caso dos animais ou vegetais «cosmopolitas» ou «ubiquistas», que se encontram em vastas superficeis do globo e que, na realidade, têm exigências menores do que a maioria das outras espécies). Cada ser vivo ocupa um espaço no qual encontra tudo aquilo de que necessita; este espaço é designado por biótopo (de bios, vida, e topos, lugar) ou habitate. Os botânicos empregam, antes, o termo estação. Utiliza-se, também, a designação mais geral de «meio», que, apesar da imprecisão que se lhe atribui, tem a vantagem de ser facilmente compreensível. Mas cada animal não frequenta senão uma parte do biótopo em que vive: o javali, por exemplo, tem por biótopo a floresta e, aqui, vive sobre o solo; ocupa aquilo que se designa por «nicho ecológico», ou seja, uma fracção do seu biótopo. (Ver na segunda parte a explicação pormenorizada desta expressão.) As exigêcias dos animais e dos vegetais variam com as espécies: tomemos o caso de um mesmo biótopo, a floresta, e de dois insectos que a habitam, o capricórnio (Cerambyx certo, coleóptero), cuja larva mina o tronco dos carvalhos, e o burgo (1), borboleta cujas lagartas, em certos anos, transformão as folhas destas árvores num rendilhado. Para o primeiro, o mais importante de tudo é a presença de velhas árvores enfraquecidas ou doentes nas quais a lavra viverá três anos. Para a borboleta, pelo contrário , o importante é a folhagem de que se alimentaram as lagartas, mas sobretudo o clima primaveril, pois a existência das jovens lagartas depende grandemente da teperatura e da pluviosidade no momento da eclosão. Enfim, cada animal distingue-se dos outros pela sua capacidade de resistência às condições desfavoráveis e a sua existência decorre, geralmente, dentro de limites bastante rigorosos. O mesmo acontece com as plantas. Em França, por exemplo, a oliveira só prospera nas regiões de clima tipicamente mediterrâneo; o ácer de Montpellier, menos exigente, atinge o Loire a oeste e a Borgonha a este. O grande interesse da Auto-Ecologia é, pois, o de nos permitir conhecer as adaptações dos seres vivos ao meio que habitam e as suas necessidades. Com efeito, a observação superficial só permite que se obtenham informações gerais acerca deles, mas se procurarmos conhecer as suas necessidades qualitativas quantitativas em alimentação,
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